

Quando Clara Nunes morreu, em 1983, parte da música brasileira foi enterrada junta. Com uma voz forte, carisma único e olhar de mãe, a mineira mais sambista da história deixou obras antológicas que desnudaram a essência mais pura do Samba. Mesmo sendo apenas intérprete, ela transformou composições de, por exemplo, Caetano Veloso e Dorival Caymmi em obras tão pessoais que parecem ter aberto canal direto pra sua alma. Tanto é que, pouquíssimas cantoras chegaram ao mesmo nível performático e talentoso de Nunes.
O disco “Guerreira”, seu décimo segundo trabalho, lançado em 1978, firmou-se como obra de referência no Samba feito para as massas. Após lançar “Canto das Três Raças” dois anos antes, e ultrapassar a barreira de um milhão de cópias comercializadas num único trabalho, qualquer disco que viesse depois teria a difícil tarefa de ter a mesma, quiçá maior, aceitação do público.
“Guerreira” não fez feio nas lojas. Bateu na casa das 800 mil cópias, o que não foi pouco. E, no quesito qualidade, fez tão bonito como. Analisando faixa a faixa, pode-se dividir o álbum em duas partes. São treze canções que ora são animadas - perfeitas pra qualquer roda de samba - ora são mais introspectivas e pensativas.
A faixa-título tem fortes influências do Candomblé, tanto na melodia quanto na letra. Clara se evoca como filha de Angola, Ketu e Nagô num Samba com tambores fortes e violão matuto. Uma boa pedida para abrir um disco que faz uma viagem pela triste história da escravidão no Brasil, mas que deixou uma herança cultural inestimável, e muitas vezes desprezada.
Em “Candongueiro”, terceira faixa, Clara canta que voltará a Minas Gerais tocando o instrumento clássico das rodas de Jongo, e, como se manifestou mais nas zonas rurais, a referência ao bucolismo mineiro fica mais evidente. No final da música, Clara atingiu notas que remetem bastante ao barulho das antigas marias-fumaças, outro cartão postal de Minas.
“Jogo de Angola” inspirou-se na Capoeira, mesclada num Samba mais raiz com pitadas de viola; melodicamente, é uma das faixas mais excitantes e rebeldes de “Guerreira”. A nona música, “Moeda”, faz uma caminho mais guiado no Samba-de-Roda e gruda fácil na cabeça.
Na parte mais dramática do disco, algumas vezes Clara tropeçou em demasiado romantismo; como nas duas últimas faixas, “Tu Que Me Destes o Teu Carinho” e “Iracema”, mais voltadas pro Bolero do que pro gênero que é marca registrada do Brasil. Mas, mesmo com tanta lamúria, são músicas especiais e audíveis.
“Mente”, a segunda música - composta por Paulo Vanzolini e Eduardo Gudin - é um Samba-Canção que contrasta bem com a açucarada e potente voz de Clara; todo o instrumental se encontra em perfeito equilíbrio com a idéia de fossa da letra. Também merecem carinho especial “Outro Recado” – com sutis, porém marcantes cuícas – “Zambelê” e “Ninguém”.
Mesmo tendo se passado três décadas que “Guerreira” chegou às lojas, ele garante ser um disco contemporâneo e uma das obras mais cativantes da MPB. Clara Nunes fora referência e marco-zero numa época onde mulheres raramente se atreviam subir aos morros e cantar Samba. Assumiu publicamente sua fé nas religiões afro-brasileiras e mostrou, mais uma vez, a importância de Minas Gerais como centro produtor e emanador de cultura popular.
Leia Também: 101 Discos, Clara Nunes, MPB, Samba Assine nosso RSS! ComentáriosParabéns ao autor (André Pacheco), lindo texto!
Só há um pequeno equívoco: “IRACEMA” foi acrescentada a este trabalho no seu lançamento (em CD) em 1997 como faixa bônus, trata-se de uma participação especial da Clara no disco do Adoniran Barbosa (1980). No LP (original) GUERREIRA consta apenas 12 faixas.