

Cada palavra de “Viagem à Palestina” (“Le Voyage em Palestine”) vai desconstruindo os estereótipos negativos dados aos palestinos e os positivos que ficam para o Estado de Israel. São pouco mais de 150 páginas que contam, através de várias visões, a precária situação na Terra Santa, na maneira como governo israelense trata o conflito e a falta de respeito aos direitos humanos. A viagem também fora documentada em vídeo, “Escritores das Fronteiras” (“Écrivains des Frontières”). Imagem e leitura se complementam, mas, são nas palavras que o sentimento de cada autor toma forma mais consistente.
Lançado originalmente pela francesa Éditions Climats, o livro é uma emocionante miscelânea de depoimentos dados por alguns monstros do Parlamento Internacional dos Escritores. São testemunhos do estadunidense Russell Banks, do chinês Bei Dao, do sul-africano Breyten Breytenbach, do italiano Vincenzo Consolo, do espanhol Juan Goytisolo e do nigeriano Wole Soyinka, além de duas mensagens, feitas por Hélène Cixous e Jacques Derrida, e, para findar, uma carta assinada por todos os escritores que compõem o Parlamento.
Porém, as palavras mais angustiantes são as de Mahmoud Darwish. Enquanto os outros intelectuais passaram poucos dias, com o aval e proteção da Organização das Nações Unidas, Darwish vive em seu cotidiano as lágrimas causadas nas políticas de extermínio aplicadas por Israel. O conteúdo disponível no livro é a transcrição de um discurso feito em Ramallah, no dia 25 de março de 2002.
É na esperança que Mahmoud Darwish firma suas colocações, deitando-a como o maior problema vivido por seu povo. Seria mais fácil se eles aceitassem as imposições sionistas, mas, é na luta diária e nas constantes humilhações que os palestinos acreditam em uma nação, no dia em que os verdadeiros terroristas sairão de seu sagrado solo. Ele frisa que a resistência à ocupação é um direito inquestionável, e com razão. Não há nenhuma legitimação dos atos fundamentalistas islâmicos em seu discurso, apenas as dores de um homem mundialmente aclamado por sua poesia.
Após sentir o misto de rancor e solidariedade do anfitrião, o livro segue em sua proposta: desnudar os factóides hipócritas reproduzidos pela grande mídia direitista norte-americana. Russel Banks é burocrático, recusa-se a servir as propostas de seu governo. Bei Dao opta pelos detalhes (é o maior depoimento), pode-se sentir o calor do dia e a frieza da noite e do exército israelense em suas palavras. Breyten Breytenbach diz que qualquer comparação com a Apartheid é infundada, e deixa nas entrelinhas que o sistema vivido pelos sul-africanos é de longe mais tênue que o imposto aos palestinos.
Vincenzo Consolo descreve uma velha que viu na estrada, e daí, sustenta suas colocações, medonhas como a foice e frescas como o hortelã. Juan Goytisolo lembra duas viagens passadas, e constata que a situação piorou, saiu de um conflito e pode ser categorizada como guerra. Christian Salmon descreve que o território é literalmente destruído, a geografia deixou de servir à guerra, e passa a guerra a servir à geografia. Wole Soyinka remonta à Grécia Antiga, conta a odisséia de Ulisses nos tempos atuais, os palestinos contra o ciclope.
Mesmo com as diferentes metáforas, todos os autores se sentem impotentes diante de tamanha barbárie, deixam claro a repulsa pelos atos de Israel, mas não querem o fim dos judeus, apenas a soberania de uma nação legítima e hospitaleira. Todos se sentem indignados com o demasiado número de postos de controle, com os tiros vindos a qualquer momento das potentes armas de Israel, das gritantes diferenças entre modernas cidades judaicas e os devastados lares palestinos.
Na época em que o livro fora editado, havia apenas começado a construção do vergonhoso muro erguido pelo lado mais forte e rico; Yasser Arafat e Ariel Sharon ainda estavam vivos, um tentava encontrar a saída pacífica, e o outro, estava vivendo sua ditadura. Porém, tudo parece tão atual e ao mesmo tempo distante, não só no espaço e tempo, transcendendo qualquer tentativa de análise científica. A mesma esperança descrita por Darwish se encontra perdida neste ano, quando Israel completa 60 anos. O futuro dos palestinos é incerto, e de Israel com seu nazismo, sublime.
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