Pode chorar, espernear e contar pra sua mãe. Você mora, sim, em um país racista! E muito mais do que imagina. Na verdade, se você acha que o Brasil não é racista, é porque (possivelmente) tem a pele clara. Mas, se fosse negro do cabelo crespo, já saberia desde cedo que isso é fato consumado, existente e vergonhoso.
Racismo não é nada mais que a dominação de um grupo social sobre outro, seja ela política, econômica ou ideológica. O conceito pode soar simplório, mas está envolto num emaranhado histórico que vai muito além da nossa geração. Para entender o porquê de sua existência, devemos voltar ao tempo. Muito ao tempo.
Andávamos perambulando por aí com dois intuitos: Alimentar e reproduzir. Éramos nômades. Vivíamos em tribos de poucas pessoas e todas provenientes de uma mesma linhagem. Com o tempo, as tribos foram se espalhando pelo mundo. As diferenças genéticas foram se tornando mais divergentes. Alguns ganharam a pele mais clara, outros ficaram mais baixos e alguns passaram a poder ingerir leite depois de adultos.
Todas as mudanças ocorridas foram resultados da adaptação. Cada canto do planeta tem sua própria característica, na Sibéria neva e no Saara faz um calor de matar. E o ser humano teve que se adequar a cada uma dessas características para manter a espécie viva.
E o mais intrigante é saber que as tribos foram se fortalecendo e crescendo. Crescendo a ponto de formarem pequenas aldeias. Afinal, o homem é um dos bichos mais fracos que a natureza já produziu e se juntar se mostrou a alternativa mais viável. Já parou pra pensar o tempo que demora pra um filhote crescer e se reproduzir? Ou, o quão arriscado é o parto? Só esses dois fatores tornam nossa espécie um cardápio fácil para os predadores.
O fortalecimento dos laços, dentre eles os familiares, nos deixou mais unidos, e como conseqüência, muito mais protegidos. Tão protegidos que começamos a achar que quem não compartilhasse das mesmas origens era um inimigo.
Com um maior desenvolvimento cultural, as diferenças, que antes eram apenas físicas, passaram a tomar formas mais complexas. Aldeias viraram cidades. Cidades viraram impérios. Bicho homem agora não se dizia mais bicho. Tinha capacidade de alterar drasticamente a natureza. Os impérios começaram a guerrear entre si. Todos queriam o poder. Mas no fundo, bem no fundo, continuamos com os mesmos propósitos básicos. Só que comer passou a envolver atividades comerciais e reproduzir ganhou o nome de constituir família.
Quem ganhava a luta se via no direito de subjugar os perdedores. Claro, se perderam é porque são inferiores. Se são inferiores, logo, podem ser tratados como escória. Ao longo da formação histórica, foi enfiado na cabeça das pessoas que existem raças. Assim como as de cachorros, vacas, ovelhas… Que as raças são diferentes entre si, não só na aparência física, mas no intelecto e capacidade de produzir.
O conceito de raça é equivocado. As diferenças são mínimas entre uma pessoa de pele branca e outra de pele negra. O que acontece são diferenciações por desenvolvimento, ou seja, genéticas, mas que podem ser as mesmas em pessoas que não compartilham de uma mesma etnia.
O racismo, então, não é uma tendência natural. É uma criação social. “Não tem como dividir o homem em raças”, diz Ana Maria Dietrich, doutora em Nazismo pela Universidade Técnica de Berlim e professora de História Contemporânea na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. Mas, devemos estar cientes que esse conceito de igualdade entre as pessoas é recente. Muito se acreditava que a cor da pele era capaz de determinar o caráter de um indivíduo. “Quando você baseia na genética pra dividir as pessoas, você corre o risco de cair no Nazismo”, completa Ana.
O sistema político criado na Alemanha em meados do século passado é cáustico em todos os aspectos. Primordialmente porque escondia em sua ideologia um sistema político elitista e destrutivo. E se a história ocidental for minuciosamente observada, se notará que o Führer não fez mais do que colocar em prática uma idéia bem antiga em terras européias. A ideologia de explorar outros povos que não se enquadravam em um conceito de desenvolvimento fez os portugueses chegarem aqui por volta de 1500.
O Brasil era uma terra de verde exuberante, e gente exótica, onde se plantando tudo dava. Vários lotes dessas terras foram divididos entre os nobres. Com o passar dos anos, algumas atividades comerciais bastante lucrativas foram se desenvolvendo. Alguém precisava pegar na enxada, e esse alguém, claro, não eram nossos amigos lusos. Os portugas viram que os índios não dariam bons escravos, por isso, tiveram que importar a mão-de-obra pra abastecer as fazendas, primeiro de cana-de-açúcar, depois, de café e assim por diante.
A Espanha já tinha seus tentáculos pela América Latina. Ou seja, os nativos dos lugares vizinhos foram cortados da lista. Onde, então, arrumar escravos? Claro, a África. Os negros foram bruscamente arrancados de suas terras e trazidos pra cá no quilo. O que colocou o Brasil (na vergonhosa) primeira posição de maior importador de mão-de-obra escrava de toda a humanidade. De acordo com dados disponibilizados pela ONG carioca Criola, foram trazidos pra cá, entre 1500 e 1870, mais de três milhões de africanos.
Não importando a tribo, eram negros. Trabalhavam como ninguém, e se reclamassem, dá-lhe chicotadas. Com o passar do tempo, novas classes sociais foram surgindo no Brasil. Alguns crioulos conseguiam a liberdade, comprando-a ou fugindo. Uma cultura alternativa foi se formando no Brasil, assim como nos Estados Unidos. Só que aqui, a coisa foi mais hipócrita. “O racismo no Brasil é mascarado na miscigenação, no espetáculo das raças e hospitalidade aos imigrantes”, enfatiza Ana Maria.
Os negros foram criando seus nichos. Mas não podiam, em hipótese alguma, se misturarem aos brancos. Música, comidas e linguagens diferentes. E claro, mantendo-se a linha. A triste linha que nos coloca como uma das nações mais racistas do mundo. Não é necessário usar nenhum dado do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) pra perceber que temos uma imensa massa de pessoas negras, e que a maioria esmagadora desta é pobre.
“O problema, é que não temos aqui um racismo institucionalizado”, continua Ana, e completa: “Aqui ele é mais social. Naquela idéia de que negros não merecem uma boa educação, e por conseqüência, bons empregos”. Mas, ainda assim, parte significativa da opinião pública insiste em dizer que não somos um país racista. A empregada é tratada como alguém da família e o porteiro do prédio é amicíssimo das crianças; mas, claro, eles usam elevadores de serviço.
Outra idéia que já está enraizada na cultura popular brasileira: Nos Estados Unidos a coisa é pior, pois, lá existem grupos de extermínios a negros. Aqui, nenhum negro foi morto depois da abolição em conta de seu aspecto físico? Diretamente, não. Mas se a ótica de análise de nossa sociedade for macro, fica fácil perceber que enfiar negros em guetos é uma maneira maquiada de exterminá-los. A vida pode não ser retirada, mas só de torná-la mais complicada é uma forma clara de aniquilação.
O racismo praticado em terras estadunidenses é o da segregação, aqui se baseia no embranquecimento da população. “Nos EUA, uma gota de sangue negro, torna a pessoa negra”, diz o jornalista Dojival Vieira, da agência Afropress, e explica a principal diferença: “no caso brasileiro, a modalidade é o racismo de marca, ou seja, o racismo que se manifesta em função da cor da pele ou do tipo de cabelo”.
Só deixaremos de ser racistas quando não forem necessárias nenhuma lei ou política de inclusão social baseadas na etnia. Um bom exemplo é a polêmica gerada pelas cotas raciais em algumas universidades públicas brasileiras, como na UNB, Universidade de Brasília, que já vem implantando esse sistema há um tempo, e não só pra negros, mas pra índios também.
O militante e articulista Ismar Souza defende a implantação do sistema de cotas, “é a primeira e única tentativa em 120 anos de fazer algo mais vigoroso, do que deixar tudo como está para ver como é que fica”. Mas, para os que são contra esse tipo de política, vários são os argumentos utilizados, entre eles que as cotas diminuiriam os níveis educacionais nas universidades que as aplicarem.
O que, para Dojival Vieira é uma falácia, “o nível não caiu e as medidas significaram a inclusão de jovens negros que, sem elas, não teriam conseguido acessar à universidade”. “É claro que a solução ideal seria melhorar a educação básica”, diz Ismar. As cotas funcionam apenas como medidas paliativas e “tentativa de derrubar as barreiras artificiais e dissimuladas que impedem a ascensão de pretos e pardos ao ensino superior gratuito”, conclui.
Indo contra o senso comum da elite branca, o Brasil é sim uma nação racista. E a discriminação por cor só deixará de nos deslustrar quando as favelas, universidades, cargos altos, cadeias e condomínios de luxo forem como muitos acreditam que é nosso país, uma verdadeira mistura de brancos e negros.
Leia Também: Afropress, Ana Maria Dietrich, Comportamento, Dojival Vieira, Escravidão, Ismar Souza, Nazismo, Racismo, Sociedade ComentáriosRacismo é a externalização da sua mediocridade… e não devemos subestimar o poder de um grupo de pessoas medíocres! Viva o Brasil!
Ótimo texto. Pacheco, realmente, você é um grande jornalista.