Dia desses estava indo para casa de um amigo, quando três homens trajando ternos (muito cafonas, diga-se de passagem) me abordaram. Em primeiro momento pensei que era um assalto, mas na verdade, foi uma frustrada tentativa de me levar para a luz. Os três quiseram me converter ao cristianismo.
Geralmente sou ríspido nesse tipo de situação. Se tem uma coisa que eu detesto, além de ternos cafonas, é falta de respeito. Ora, não vivemos numa nação onde nos é garantida a liberdade de consciência? Então, eu gostaria que esse meu direito fosse respeitado por esse tipo de gente.
Fui educado, meu dia estava muito lindo para ser destruído por um bate-boca que não daria em nada. Ele me entregou um panfleto e desejou que Deus me acompanhasse. Aceitei o papel e disse que Deus poderia ficar com ele, não gosto de ser acompanhado por quem não gosta de mim.
Por curiosidade, e vontade de conhecer o inimigo, li o conteúdo do panfleto. A única reação que tive foi nojo. Não me enojo do fato de cada um ter sua fé, que isso fique claro. Respeito o direito universal que cada indivíduo tem de viver e manifestar sua ideologia, desde que, seja respeitado o direito de outro fazer o mesmo.
O panfleto falava de uma tal luta pela moralização do mundo, resgate de alguns irmãos perdidos no ateísmo e no homossexualismo. Até aí, tudo bem. Afinal, se tratava de conteúdo escrito e distribuído por uma seita evangélica. O que mais me causou asco, na verdade, é o egoísmo pregado nas entrelinhas ou abertamente.
Egoísmo? Sim, e bem grande. O mesmo egoísmo que colocou a nossa sobrevivência neste planeta em perigo, que faz milhares de pessoas perderem a vida diariamente e dita regras sociais absurdas. A luta do individualismo, a busca pelo perdão divino e eternidade no paraíso.
Falam tanto de amor. Amor pra cá, amor pra lá. Mas, e na prática? Existe, para eles, algum amor que não seja baseado no ódio? Porque, pelo que eu interpretei, o amor que eles tanto vangloriam não é nada mais que ódio disfarçado. Ódio por quem não aceita viver nas mesmas condições que eles pregam, que não acreditam na existência de um ser superior vezes tão inferior como qualquer outro mero mortal.
Amor, pelo que a vida me ensinou, está centrado na tolerância. Tolerar é tão impossível assim? É tão difícil, meus caros egoístas, respeitar o espaço alheio? Custa tanto ver que a sociedade é formada por pessoas plurais, das mais diferentes experiências? Amar é compreender, respeitar e dividir; o verbo amar está muito longe de meramente orar e derramar lágrimas sobre o passado que não mais voltará.
Me parece tão cínico achar que a salvação é somente se purificar, e tentar fazer o mesmo com outros. Apenas isso, transformar as pessoas numa massa igual e doadora de dízimos. Não consigo imaginar um mundo onde todos os homens vistam ternos cafonas e só se escute berros de aleluia. Meu intelecto não permite conceber um mundo sem liberdade de pensamento, sem pluralidade cultural e sexual.
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os caras acham que estão fazendo a coisa certa, buscando mais fiéis pra conhecer sua ideologia… mas fica a pergunta: que ideologia é essa?
é um querendo provar pro outro que conhece a verdade absoluta, quando eu acho que ninguém realmente pode o fazer… como podemos opinar sobre aquilo que está alem da nossa insignificante existência?
um abraço!
Individualidade é uma coisa tão recente na nossa cultura que eu até compreendo a dificuldade de muitas pessoas em aceitá-la, assim como é difícil para elas aceitar aquilo que é diferente do que elas conhecem, como por exemplo o homossexualismo e o ateísmo, citados no panfleto. Afinal, o preconceito nasce daí, da falta de conhecimento sobre o que é diferente. Respeito a crença dos outros, mesmo que os outros nem sempre respeitem a minha, mas essa certeza de que se é o detentor da verdade me incomoda e me irrita demais.
Ótimo post =)
esse panfletos são de testemunhas de jeová, né? sei qual é, um saco…