cultura pop porcaria com água quente
Chuveirada5nov

Devaneios na Crise (Parte 1)

Esta é a primeira parte de uma série de textos opinativos sobre a crise econômica global e suas consequências aqui no Brasil.

Agora pouco apresentei um seminário de Antropologia sobre o livro “A Máquina e a Revolta - As Organizações Populares e o Significado da Pobreza”, da antropóloga Alba Zaluar. O livro, lançado em 1985, é até hoje umas das obras mais importantes da Antropologia Brasileira.

Cena clássica do filme “Cidade de Deus”. Foto: ReproduçãoDurante três anos, Alba fez uma pesquisa de campo na comunidade Cidade de Deus, na época considerada uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro. Na visão da mídia, toda a população do local era perigosa, bandida e sem escrúpulos. Mas para eles, havia uma diferença importante entre “trabalhadores” e “bandidos”.

Uma Revolução Silenciosa

A revolução já começou há muito aqui no Brasil, só que fantasiada e pelas mãos das camadas mais marginalizadas da população

“Trabalhadores” eram, na visão dos “bandidos”, otários que trabalhavam para ganhar cada vez menos. “Bandidos”, para os “trabalhadores”, podiam ser divididos em três categorias: Os “bandidos formados” viviam numa espécie de simbiose com a população local, ofereciam proteção e tinham um certo respeito. Os “bandidos porcos” eram ditos como vagabundos e furtavam os “trabalhadores”. Por fim, os “pivetes” eram moradores (geralmente adolescentes) que sem escrúpulo algum humilhavam e roubavam os “trabalhadores”.

Basta lembrar do filme “Cidade de Deus”. Não tinha o Zé Pequeno? Mesmo ele sendo dono de muitas bocas-de-fumo, não era respeitado como “bandido formado” - apenas temido pela população. Já o Mané Galinha era concebido como um herói local, alguém que veio para lutar contra o domínio de Zé Pequeno e até mesmo do sistema social vigente - o Capitalismo.

No livro é citado o respeito que tinham por Mané Galinha, principalmente na maneira como era chamado cariosamente de “o falecido”. Só para contextualizar: Alba esteve na Cidade de Deus pouco mais de um ano após o assassinato de Manoel Machado da Rocha, o Mané Galinha.

Uma das partes que mais chamou minha atenção foi o depoimento de um morador jovem, que não considerava a bandidagem uma solução (pelo menos para ele). Dentro de todo o contexto social que vivia, ele considerava bandido de verdade - ou “formado” - aquele que “vai lá no banco mesmo, pega o grande”.

E, pelo que eu entendi da obra, existia um certo sentimento de revolta dos habitantes da Cidade de Deus com o sistema. Para eles, roubar a comunidade (os “trabalhadores) era inaceitável; porém, roubar os “ricos” que viviam nas áreas mais valorizadas do Rio de Janeiro era compreendido como uma maneira de mostrar ao governo o descontentamento dos pobres com as políticas públicas.

O crime, então, não era como a classe-média e os ricos viam - e veem até hoje. Crime era roubar os iguais: negros, pobres e marginalizados. Crime era a polícia chegar e atirar em todos que se movessem, sem se importarem se eram bandidos ou não. Crime era a mídia tratar os mais pobres como pessoas ruins e sem futuro.

Silenciosamente, acontecia uma Revolução Socialista no Rio de Janeiro, só que sem se quebrar máquinas, passeatas estudantis ou intelectuais à frente da massa. Os próprios injustiçados arrumaram uma maneira de impor um novo sistema. E inconscientemente aplicaram uma política de longo prazo em que os resultados - por uma série de fatores - começarão a aparecer agora.

, , , , , , , , , , , ,
  • Eduardo5/11/08 - 10:33

    Se me permites, André, vou discordar da tua afirmação sobre ‘a revolução socialista”.

    O fenômeno verificado nas nossas periferias e abordado em Cidade de Deus não é uma revolução e não é uma revolução socialista. É luta de classes, sim, mas nem toda luta de classes é socialista e nem sempre vira revolução.

    A questão social do crime nas periferias está muito mais para disputa tribal entre senhores da guerra, que são beneficiados pela ausência do Estado nesss comunidades.

    Eles atacam os ricos não por quererem abolir o sistema capitalista (na verdade, eles buscam um atalho para serem ricos eles póprios), mas por uma identificação tribal de “nós contra eles”,

  • Eduardo5/11/08 - 10:34

    Ah, e o Zé Pequeno é responsável por uma das melhores tiradas da história do cinema:

    — Dadinho é o caralho; meu nome é Zé pequeno, porra!

  • André Pacheco5/11/08 - 12:35

    Eduardo, concordo em parte com você. Mas, calma rapaz, vou continuar minha linha de raciocínio no meu próximo texto.

    :D

Widget BlogBlogs | Vestiário no BlogBlogs
  • Vinícius Blanco em As 10 Músicas Pop Mais Uó: hahahahahahaah Como sempre me divertindo MUITO lendo o que você...
  • Augusto Mota em O bolo do preconceito político murchou: Cara concordo totalmente com você, parabéns pelo texto e...
  • João em As 10 Músicas Pop Mais Uó: ahuahuhuahuah Adorei a lista… Tinha que ser as 20 músicas mais UÓ....
  • ana borba em As 10 Músicas Pop Mais Uó: pior que ouvir a jennifer cantando “I`m Real”, é ouvi-la...
  • Guilherme Bandeira em O bolo do preconceito político murchou: Gosto muito do Lula, tenho medo, muito medo de quem...
vestiario.org/blog
Design: André Pacheco | Tecnologia: WordPress
Fotos: SXC, CG Textures | Vetores: Blog Theme Machine, Jonny-Doomsday, Synthatetic | Fontes: DaFont
Licença Creative Commons